terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Desparasitar - "Desparatisar" p'rós amigos

ATENÇÃO! ARTIGO OPINATIVO (prossiga por sua conta e risco)

O típico dono adquire um animal de estimação e das primeiras coisas que lhe impingem explicam no veterinário (a seguir ao protocolo de vacinação, claro) é um outro protocolo que muitos têm até dificuldade em pronunciar: des-pa-ra-si-ta-ção, muitas vezes abreviado para "desparatisação". Tudo isto parece é um grande disparate!

*Palavras complicadas que esta classe profissional inventa pá!*

É meus queridos, mais um tema que vai pôr muita gente... em pulgas.

Primeiro de tudo vamos dividir as águas, há dois tipos de desparasitação:

  • Externa: elimina pulgas, carraças, piolhos, mosquitos... (tudo o que vem do exterior)
  • Interna: elimina lombrigas e bichezas dos intestinos, basicamente

De acordo com os fabricantes, estes devem ser aplicados...


Ah esta eu sei, esta eu sei! Pipetas todos os meses pr'as pulgas e comprimidos de 4 em 4 meses ou coisa assim pr'os vermes...
Muito bem! De facto, isto é o que, provavelmente, grande parte dos veterinários aconselha. A desparasitação externa, apesar de poder ser feita de outras maneiras, é mais usada na forma de pipeta que se aplica atrás do pescoço ou ao longo do dorso. Enquanto que a desparasitação interna costuma ser efectuada através de um comprimido que, basicamente, limpa tudo. A sua frequência pode variar de acordo com o estilo de vida do animal ou se contacta com crianças ou imunodeprimidos, às vezes é recomendado todos os meses, outras vezes de 6 em 6...

Oh, isto já eu sei... Até aqui nada de novo, vou mas é para outro blogue que este é uma seca!
Antes de saltar para conclusões precipitadas (onde é que já se viu, achar o meu blogue uma seca), vamos esclarecer uma coisa: estamos no século XXI (caso restem dúvidas por aí).
Com isto quero dizer que, antigamente, talvez no tempo dos pais ou avós de muitos de nós, praticamente toda a gente tinha uma lombriga de estimação. Assim sendo, e porque o pessoal ainda era mais pobre do que agora (imagine-se!) era bem mais fácil e prático desparasitar tudo e todos do que analisar cada caso isoladamente e tratar só os que realmente tinham uma lombriga falsa amiga.

A 'xôtora 'tá então a dizer para "desparatisar" só quando se suspeita que o bicho está com bichos?
Em relação às pipetas, e porque as pulgas hoje em dia já não são sazonais nem fáceis de controlar no meio ambiente uma vez instaladas, sugiro que se deva seguir o protocolo habitual (mesma coisa para a prevenção do mosquito da leishmaniose e dirofilaria nas zonas que fazem sentido). Aqui estão as directrizes mais actuais (Abril 2016) para o controlo e prevenção destes parasitas externos.
Contudo, hoje em dia, principalmente nos centros das cidades, os animais já têm os intestinos mais do que esterilizados, com comprimido para aqui, comprimido para ali... Ao fim de contas, estamos a dar, às vezes todos os meses (como aconselha aqui em alguns casos), um medicamento que, apesar de tudo, não previne futuras infestações e sobrecarrega o fígado, não trazendo vantagem nenhuma se o animal estiver "limpo".

E como é que posso suspeitar que o meu animal está infestado?
Simples. Geralmente as infestações intestinais dão sinais clínicos, tais como: diarreia, apetite voraz ou perda deste, diminuição do peso, fraqueza, anemia, arrastar o rabo pelo chão nos cães (muito relacionado também com dificuldades no esvaziamento das glândulas peri-anais)...
Felizmente, para confirmar se o seu animal tem ou não uma infestação intestinal, o veterinário fará um teste barato, chamado coprologia parasitológica. Não querendo entrar em muitos detalhes, porque já se adivinha o que daqui vai sair, o dono vai ter que, durante três dias alternados, recolher as fezes do seu melhor amigo e levá-las ao seu veterinário (particularmente desafiante quando se trata de diarreia). Ele fará então o trabalho, literalmente, sujo: misturar as fezes de cada dia e observar ao microscópio.
Ah! Esta nobre profissão!
Muitas vezes, contudo, pode encontrar-se uma ligeira carga parasitária, sem que isso tenha repercussões negativas na saúde do animal, ou seja, haver parasitas sem que estes causem doença. Nestes casos, o ideal será vigiar o animal em vez de nos precipitar-mos logo para uma limpeza geral, que irá perturbar o equilíbrio simbiótico que poderá estar a ocorrer há anos.

Existe algum remédio caseiro que possa usar em vez destas coisas sintéticas? Lá na minha terra davam (___inserir mezinha aqui___)...
Talvez. Numa breve pesquisa online consegui encontrar desde alho a banhos de vinagre, passando por sementes de abóbora, cravinho e cenouras tendo parado quando li absinto... ah claro, e sempre em noites de lua cheia, 'saxavôr! Estudos científicos na matéria são praticamente nulos, e quem sou eu para pôr a sabedoria popular em questão. Recomendo? Não, de forma nenhuma. Mas siga e depois digam-me se resultou.

Ah e tal, eu desparasito internamente o meu cão/gato de 3 em 3 meses porque tenho crianças pequenas, logo esta conversa para mim não se aplica.
Nos casos em que o animal contacta com crianças (ou outro grupo susceptível) concordo que se façam desparasitações regulares, de preferência baseadas nos tais testes coprológicos acima descritos. Contudo, muitas vezes, o parasita mora ao lado, senão vejamos este estudo de 2014, onde se analisaram 19 parques públicos, incluindo parques infantis, da Grande Lisboa e se recolheu solo e material fecal para a pesquisa de Toxocara (parasita intestinal muito comum nos países desenvolvidos). 
Resultados? Só no solo dos parques infantis (aqueles com caixas de areia) 85,7% destes continham o tal parasita, mas interessantemente, dos cocós lá apanhados só 14,3% estavam contaminados. Nos parques públicos o cenário é um pouco menos desconcertante: só metade dos parques analisados tinham Toxocara no solo e, muito semelhante aos parques infantis, apenas 16,7% das fezes continham o parasita. Da próxima vez que fizer um piquenique ao sábado à tarde num lindo relvado, lembre-se de reservar o seu lugar nesta festa de parasitas, entrada gratuita! 
Ah, esqueci-me de dizer que, simplificando, existem duas espécies importantes de Toxocara: canis e catis. A mais encontrada no solo destes sítios foi a T. catis, preciso de explicar a que espécie pertence?
Ou seja, o problema, muito provavelmente, não está em esterilizar ainda mais os nossos cães (que alguns nem vão aos jardins) e sim perceber que, independentemente disto, existe uma outra classe de animais, os gatos errantes, que têm mais com que se preocupar do que ir ao vet comprar o comprimido da desparasitação.
É assim fulcral o ensinamento de regras básicas de higiene aos miúdos, não só quando se acaba de mexer nos animais mas quando se vai a parques infantis, de modo a diminuir a probabilidade de infestação.

Concluindo: 
  • Não sobrecarreguem o fígado do vosso bichinho, vai-lhes ser muito útil quando forem velhotes;
  • Façam testes coprológicos que são baratos (à volta do preço de um comprimido de desparasitação);
  • Não metam os vossos filhos em parques infantis com caixas de areia (= wc gigante dos gatos);
  • Ensinem regras de higiene aos pequenos e expliquem-lhes o porquê;
  • Adoptem um gato de rua (bebé) e desparasitem-no :)

Surpreendam o vosso veterinário este Natal: levem-lhe um presente original