quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Vacinas - O que o veterinário não lhe disse

Hoje começamos com um tema controverso.

Vacinas.

Vamos começar pelo início: um animal nasce.

Nasce, e se for um animal com sorte vai ter uma mãe presente que lhe vai fornecer uma alimentação baseada em colostro nos primeiros dias de vida seguido de leite. Este colostro e leite, cheios de defesas contra os males do mundo, vão proteger a cria durante... depende...

Quem tem ou teve cães desde bebés sabe que nos primeiros meses de vida já está lida a sina:

  • Às 6 ou 8 semanas vacinar contra a esgana, parvovirose e hepatite infecciosa canina;
  • Passadas 2 a 4 semanas fazer novo reforço e adicionar leptospirose;
  • E mais outro reforço disto tudo 2 ou 4 semanas depois e desta vez adicionar ainda a raiva.
Ou, por outro lado, donos de gatinhos bebés:
  • Às 6 ou 8 semanas vacinar contra a panleucopénia, herpesvirus felino e calicivirus;
  • Passadas 2 a 4 semanas fazer novo reforço;
  • Repetir a dose 2 a 4 semanas depois.

Estes protocolos vacinais começam na altura que, em geral, as defesas dadas pela mãe já estão a desaparecer do organismo do cachorro ou gatinho (6-8 semanas de vida). Porquê? Porque vacinar antes disso seria totalmente em vão: os anticorpos da mãe iriam aniquilar os antigénios da vacina.

E porque é preciso vacinar 3 vezes para 3 doenças? Uma vez não chega?
Como escrevi anteriormente: "(...) Na altura que, em geral, as defesas dadas pela mãe já estão a desaparecer (...)"... Há animais que, por terem tido super mães, cheias de defesas, a sua imunidade dura muito mais do que as 6-8 semanas de vida, podendo chegar até às 14 semanas. Se formos vacinar um desses super cachorros, com imunidade até, por exemplo, às 14 semanas, todas as vacinas que lhe dermos até essa altura vão ser inactivadas pelos anticorpos que a mãe lhe deu. Por isso é preciso vacinar e revacinar e revacinar até à 3ª vez para garantir que os anticorpos da mãe já não são suficientes para influenciar a eficácia da vacina.

Ok, pronto, então pago as vacinas contra a esgana, parvovirose, hepa... hepatite quê?
Pois é, logo aqui começam as questões. 
Infelizmente, os veterinários estão presos àquilo que as indústrias farmacêuticas produzem, ou seja, não é possível vacinar individualmente para cada doença. 

Infelizmente? Então mas infelizmente porquê? Assim é mais prático para vocês!
É... Desafio qualquer pessoa a realizar uma pesquisa sobre os últimos casos de hepatite infecciosa canina em Portugal. Eu nunca vi nenhum, nem conheço nenhum colega que tenha visto. Para além disto, está descrita uma diminuição na imunidade durante dez dias depois de dada a vacina contra esta doença.
Da mesma maneira, a duração da imunidade para a leptospirose pode ser inferior a um ano e estas vacinas são reforçadas anualmente...
Isto faz-nos concluir que, para além de estar-mos a vacinar para doenças que já nem existem estamos também a subestimar a leptospirose e todas as variantes que ela possui.

Então estamos a sobrevacinar por um lado e subvacinar por outro? Não foi nada disto que me disseram no veterinário!
Exacto. Aqui, para os mais corajosos, estão as directrizes de Janeiro de 2016 (as mais actuais) em relação à vacinação de cães e gatos da associação mundial de veterinários. Para quem não quer ler as longas 50 páginas, saltemos logo para a 17, onde se encontra uma tabela que resume os intervalos de vacinação para cada doença. Podemos logo constatar que, em relação à parvovirose (ou panleucopénia felina, página 21) a recomendação é de revacinar de 3 em 3 anos. Podemos igualmente perceber, como anteriormente referido, que a vacina contra a leptospirose não garante uma imunidade anual.
Contudo, e mesmo sabendo tudo isto, não é possível vacinar, por exemplo, para a leptospirose de 6 em 6 meses e para a parvovirose trienalmente, pois ambas se encontram combinadas no mesmo lote.
Assim, e para explicar tudo isto aos donos interessados, é importante haver uma constante actualização por parte dos veterinários e vontade por parte dos donos de lerem sobre a matéria e perceberem o que realmente estão a pagar. 

Ah e há mais... mais?
Uma empresa farmacêutica (Vanguard) realizou um estudo em relação à probabilidade de imunização para a parvovirose às 6, 9 e 12 semanas e:
  • Dos cães vacinados às 6 semanas contra a parvovirose, só 52% ficaram protegidos nessa altura;
  • Dos cães vacinados às 9 semanas contra a parvovirose, 88% demonstraram reacção à vacina;
  • Todos os cães vacinados às 12 semanas ficaram protegidos contra a parvovirose.
Ainda, e de acordo com alguns investigadores, quando uma vacina é repetida parece que a primeira dose pode interferir com a segunda, causando assim uma dupla probabilidade de efeitos secundários. Existem inclusivamente variadas pesquisas que parecem indicar que grande parte das doenças crónicas que surgem em animais mais velhos poderão estar relacionadas com a vacinação em excesso.
Conclusão: o ideal seria fechar os animais em casa até às 12 semanas (que já é o que acontece mesmo levando o plano vacinal normal) e só aí vacinar, apenas uma vez para as doenças virais, e a partir daí realizar um teste para medir a resposta imunitária do animal àquelas doenças até ao primeiro ano de vida e a partir daí de 3 em 3 anos. Contudo, os testes (titulação de anticorpos) são mais caros que as vacinas e a maioria dos veterinários está formatada para nem sequer falar sobre eles.

Os veterinários devem é fazer dinheiro pela quantidade de vacinas que cobram, cambada de chupistas!!
Nim, e isto é uma triste realidade da profissão a nível nacional (pelo menos). 
Existem alguns, raros, casos onde o médico veterinário ganha um ordenado base (baixo) e cada vacina que aplica vai acumulando no salário. Felizmente, como disse, são raros esses sítios e é pena que um médico-veterinário se deixe submeter a tal humilhação, pronto disse!
A maioria dos médicos veterinários que trabalha em clínicas ou hospitais não ganha "à comissão", contudo, e porque há contas para pagar, a maioria dos centros de atendimento precisam das vacinas para pagar a renda, os fornecedores... e vão incutindo um certo grau de pressão no médico veterinário para vender o que quer que seja (vacinas, rações, suplementos...). Cabe à consciência de cada um (e à necessidade) permanecer nesse tipo de ambientes e ir contra os ideais que o levaram a seguir esta, outrora, nobre profissão.

Então e os animais que se adoptam já em adultos, vale a pena vacinar? Eles já estão cheios de defesas com certeza!
Um cão/gato adoptado em idade adulta (mais de um ano de idade), com histórico de vacinações desconhecido já teve provavelmente contacto com diversos agentes patogénicos ao longo da sua vida, poderíamos então concluir que o seu sistema imunitário já está mais do que preparado para enfrentar qualquer doença infecciosa. Contudo, frequentemente ocorrem novas estirpes virais e/ou bacterianas no meio ambiente, o que apanha muitos destes animais desprevenidos. Por isso aconselho, sempre que existirem novas estirpes e consequentemente novas vacinas, a vacinar os animais mesmo adultos que venham de canis. Mas isso também está tudo explicado no documento lá de cima, mais precisamente na página 8, desta maneira:

Um cão adulto que tenha recebido uma série completa de vacinações essenciais quando filhote, incluindo um reforço às 26 ou 52 semanas, mas que pode não ter sido vacinado regularmente quando adulto, requer apenas uma única dose de vacina essencial contendo VVM (vacinas com vírus modificado) para reforçar a imunidade. Similarmente, um cão adulto (ou filhote com mais de 16 semanas de idade) adotado, com histórico de vacinação desconhecido, requer apenas uma única dose de vacina essencial contendo VVM  para gerar uma resposta imune protetora. As folhas de dados de várias vacinas avisarão nestas circunstâncias, que o cão requer duas vacinações (como para um filhote), mas esta prática é injustificada e contrária aos princípios imunológicos fundamentais. Note, novamente, que isto não se aplica às vacinas não essenciais, muitas das quais requerem duas doses em um cão adulto.

Pois é... só uma dose... mas o problema é que as vacinas não essenciais (ex.: leptospirose) e essenciais (ex.: parvovirose) estão todas misturadas na mesma vacina e precisamos mesmo, por enquanto, de fazer um reforço após a primeira inoculação.

Wow! O que já aprendi hoje... Então e vacinar a mais faz mal?
As consequências da sobrevacinação vão depender muito do animal em si. Geralmente, os donos de animais idosos ou debilitados devem preocupar-se mais em estabilizar o estado de saúde do seu animal pois as vacinas, afinal de contas, não são mais do que pedaços da doença, inactiva ou não. Um animal já de si debilitado não terá condições imunitárias para responder a um vírus, mesmo que fraquinho, podendo ainda piorar a doença subjacente.
É ainda de extrema importância alertar os novos donos que levam pelas primeiras vezes os seus animais à vacina que, depois desta, devem aguardar na sala de espera, pelo menos 15 minutos, de modo a detectar antecipadamente qualquer tipo de reacção vacinal adversa.

O que é isso de reacção vacinal adversa? Há raças mais predispostas?
Há vários graus de reacções adversas:
  • Ligeiro (pode aparecer até 48h após o acto de vacinação): inchaço na região da vacina, febre ligeira, letargia, falta de apetite ou ainda um nódulo duro na zona da picada que tende a desaparecer com o tempo e não representa nenhum perigo para o animal;
  • Moderado: comichão intensa em todo o corpo ou inchaço de algumas zonas do corpo;
  • Grave (aparecem minutos após o acto de vacinação): vómitos, diarreia, convulsões, fraqueza  muscular e falta de ar. Em cães e gatos os sinais são semelhantes.
De salientar que as reacções adversas, principalmente as graves, não ocorrem na primeira vacinação do animal, mas sim na segunda ou terceira. Mesmo que o seu médico veterinário não refira isto na primeira consulta, tente não se afastar muito da clínica nos primeiros minutos, garantindo assim um auxílio rápido caso algo aconteça.
As raças de cães mais predispostas a reacções vacinais adversas são: Akita, Cocker Spaniel Americano, Pastor Alemão, Golden Retriever, Setter Irlandês, Grand Danois, Kerry Blue Terrier e todas as variedades de Dachshund e Caniche. Recentemente, novos estudos demonstram que as raças mais predispostas poderão incluir ainda o Standard Poodle, Dachshund de pêlo comprido, Old English Sheepdog, Scottish Terrier, Shetland Sheepdog, Shih Tzu, Vizsla e Weimaraner, assim como raças de pelagem branca.

Então e aquela história das vacinas fazerem tumores em gatos? Isso é verdade?
É raro mas sim, e isso está muito bem explicado na página 14 do documento acima mencionado. Para quem está com preguiça de ler, ou mesmo para quem nunca tenha ouvido falar disto, eu resumo.
Há já alguns anos que se tem relatado um surgimento de tumores (sarcomas) associados aos locais de injecção de vacinas com adjuvantes de alumínio em gatos (adjuvante = composto que ajuda a vacina a funcionar melhor), especialmente a vacina contra o FeLV (leucemia felina) e, ainda mais, a vacina da raiva (usada mais quando o animal viaja).

Mas ó xôtora, eu sou veterinário e isso nunca me aconteceu!
Isso não quer dizer que nunca venha a acontecer. Realmente, a probabilidade de suceder está descrita ser de 1 para 5000 a 12500 gatos, mas é essencial informar os donos disto.
Para além de informar os donos, uma medida bastante útil, e inclusivamente aconselhada, é vacinar para estas doenças apenas se estritamente necessário e cada vez numa zona diferente do corpo, de preferência uma zona que possa ser... amputada.

Independentemente de tudo isto, o plano vacinal de cada animal deve ser feito de forma individual e personalizada a cada caso, tendo em conta o estilo de vida do animal e as epidemias presentes naquele ano e naquela região. Vacinar a mais traz certamente desvantagens, mas não vacinar de todo é catastrófico. Desde que o médico veterinário esteja ciente e transmita o que está a ser inoculado e as diferentes possibilidades e vias de escolha, o cliente sentir-se-á esclarecido, incluído nas decisões que toma para o seu animal e com certeza será alguém que voltará, não porque o veterinário disse, mas sim porque sente que é sua responsabilidade zelar pela saúde de quem depende dele para o proteger.